Sobre jogos e trapaças

Nada mais indicativo que o título do filme do inglês Guy Ritchie para expressar o momento político que o Estado atualmente enfrenta. Jogos políticos pela rejeição do plano apresentado pela governadora, trapaças, corrupção dentro das instituições públicas e dois poderes que não querem sob nenhuma hipótese abrir mão de seus privilégios, sob ameaça de cuspir fogo.

O assunto está em pauta todos os dias. Os jornais noticiam irregularidades, objeto de investigação em diversos setores ligados ao governo. A governadora expõe a situação ao público e clama auxílio ao Legislativo, ao Judiciário e ao Ministério Público para compreenderem a necessidade da redução de custos e da aprovação de medidas que aliviem as contas do governo. O Executivo, que tem a média salarial mais baixa em comparação aos demais poderes, sofre sozinho e acompanha diariamente o drama para recebimento da gratificação natalina, que será, como repetidas vezes, repartida em fatias.

Igualmente como no filme, a solução está na busca pelo dinheiro. No caso das finanças do RS, a solução terá de vir do bolso contribuinte que assiste lá de baixo a todos os acontecimentos. Daí a série de questionamentos, de certa forma respondidos se prestarmos atenção às políticas dos países do chamado Primeiro Mundo. Lá não vemos tantos escândalos de corrupção e malversação das finanças públicas. Não vemos uma disparidade abissal entre salários e privilégios de determinadas classes em detrimento de outras, a ponto de termos, a título de exemplo, conselheiros das contas públicas percebendo quase 40 vezes mais do que o soldado atuante na linha de frente no cumprimento das leis. Não temos notícia de os poderes estatais querendo toda a cobertura do bolo (tributário) e, principalmente, não temos notícia de um governo perder um jogo de pretensões políticas por unanimidade na mesa de votação.

Cada um com sua opinião e com o seu voto partidário! Mas, em análise dessas circunstâncias, percebemos que antes do aumento das contribuições é preciso que se organize a casa. Necessário, pois, que o governo estabeleça parâmetros salariais de modo a não continuar valorizando determinadas categorias profissionais sobrepujando as outras. Necessário ter o total controle dos gastos públicos e dos serviços prestados afastando de vez os escândalos de corrupção, com as determinadas contratações de serviços e com privilégios que se agregam aos vencimentos. Para isso, teríamos, talvez, de fazer uma profunda reflexão acerca de todo o atual processo eleitoral, criador de teias e vontades políticas. Certo, entretanto, que arrumar a casa é o primeiro passo para postular a pretendida reforma das finanças públicas do Estado através do contribuinte, no aumento da carga tributária. Até lá, preferimos o conselheiro a quase 40 soldados na rua.

RAFAEL VENTURELLA | Capitão da Brigada Militar